O novo Documento do Vaticano VENITE AD ME convida a Igreja a renovar a evangelização, colocando o encontro com Jesus no centro da vida cristã e fortalecendo o testemunho das comunidades. Publicado inicialmente na Revista O Lutador.
Como transmitir a fé às novas gerações em um mundo que muda tão rapidamente? Como anunciar Jesus Cristo a pessoas que já não encontram na família, na sociedade e nas instituições religiosas as mesmas referências de antigamente? Essas são algumas das questões que motivam o documento Venite ad me (“Vinde a mim”), publicado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, no Vaticano, em 22 de outubro de 2026.
Inspirado no convite de Jesus — “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28) —, o texto apresenta uma reflexão sobre os desafios atuais da transmissão da fé e aponta caminhos para renovar a ação evangelizadora da Igreja.
A fé nasce do encontro com Jesus
O documento recorda que o cristianismo não começa simplesmente com o aprendizado de doutrinas ou o cumprimento de normas religiosas. Seu fundamento é o encontro com Jesus Cristo, que revela o amor de Deus, renova a esperança e abre novos horizontes para a vida.
Isso não significa deixar de lado a catequese, a formação doutrinal ou os sacramentos. Pelo contrário, significa ajudá-los a cumprir sua finalidade: conduzir as pessoas a uma relação viva com Cristo e a um compromisso cada vez maior com o Evangelho.
Por isso, uma das grandes ênfases do documento é a centralidade do querigma, o primeiro e fundamental anúncio da fé: Jesus Cristo nos ama, entregou sua vida por nós, ressuscitou e permanece vivo em nosso meio. Esse anúncio não deve ficar restrito ao início da caminhada cristã. Ele precisa acompanhar toda a vida da Igreja, iluminando a catequese, a liturgia, a formação e o serviço aos irmãos.
Uma nova realidade exige novas respostas

Durante muito tempo, a transmissão da fé contou com a contribuição conjunta da família, da comunidade, da escola e da cultura. Hoje, essa continuidade já não pode ser presumida. Muitas crianças e jovens crescem sem uma experiência significativa de oração, sem contato frequente com a Bíblia e sem vínculos duradouros com uma comunidade cristã.
A cultura digital, o individualismo e as rápidas transformações sociais trazem novos desafios. A quantidade de informações religiosas disponível na internet, por si só, não garante o amadurecimento da fé. É necessário favorecer experiências de encontro, escuta, participação e acompanhamento.
O documento, porém, não olha para essa realidade apenas com preocupação. Reconhece também novas possibilidades de aproximação com o Evangelho. Pessoas que nunca tiveram uma experiência religiosa profunda ou que se afastaram da Igreja podem reencontrar o caminho da fé por meio de uma amizade, de uma celebração, de uma situação de sofrimento, da beleza, da oração ou do testemunho de uma comunidade acolhedora.
A crise da transmissão da fé pode, assim, tornar-se uma oportunidade para rever práticas pastorais e redescobrir a força do anúncio cristão.
A comunidade transmite a fé pelo que vive
A família continua sendo um espaço privilegiado de transmissão da fé. Pais, mães, avós e outros familiares ensinam não apenas com palavras, mas também pela maneira como vivem, enfrentam as dificuldades, rezam, perdoam e cuidam uns dos outros.
Essa missão, entretanto, não pode ser deixada exclusivamente às famílias. Toda a comunidade cristã é responsável por acolher, acompanhar e ajudar as pessoas a amadurecer na fé.
Nesse caminho, o documento valoriza os encontros pessoais, os grupos de escuta da Palavra de Deus, a oração, a liturgia, a piedade popular, a arte e o testemunho da caridade. A comunidade evangeliza quando oferece espaços de convivência fraterna, quando escuta sem julgar, quando acolhe quem chega e quando se faz próxima de quem sofre.
A atenção aos pobres e excluídos também ocupa lugar importante. A caridade não é uma atividade secundária da Igreja, mas expressão essencial de sua identidade. Não basta falar do amor de Deus: é preciso torná-lo visível nas relações, nas escolhas e no compromisso com a dignidade humana.
O Evangelho precisa dialogar com a vida
Outro aspecto importante é a necessidade de anunciar a fé em uma linguagem compreensível e próxima da realidade das pessoas. A fidelidade ao Evangelho não exige repetir sempre as mesmas formas de comunicação. Exige encontrar maneiras de fazer com que a mensagem de Jesus seja ouvida, compreendida e acolhida em diferentes contextos culturais.
Isso pede atenção às novas gerações, diálogo com a sociedade, abertura às perguntas contemporâneas e uso responsável das tecnologias digitais. Pede também valorização das expressões de fé presentes na cultura popular e nas tradições religiosas dos povos.
A Igreja é chamada a aprender com a história. Em diferentes épocas, diante de grandes mudanças, surgiram novas experiências de evangelização, movimentos espirituais e formas de presença cristã. Hoje, também somos convidados a discernir os sinais dos tempos e a encontrar respostas criativas, sem perder o essencial da fé.
Ser uma Igreja que partilha a luz
A imagem que encerra o documento é a do círio pascal. Na Vigília Pascal, a chama é transmitida de uma vela para outra, até iluminar toda a assembleia. Cada pessoa recebe a luz e, por sua vez, ajuda a comunicá-la aos demais.
Assim acontece com a fé. Não somos donos da luz: recebemos de Cristo a vida nova e somos chamados a partilhá-la. Cada geração tem a responsabilidade de acolher o Evangelho, deixar-se transformar por ele e transmiti-lo às gerações seguintes.
Para nossas comunidades, essa reflexão deixa uma pergunta fundamental: nossas atividades pastorais estão ajudando as pessoas a encontrar Jesus e a viver como discípulas e discípulos dele?
Mais do que multiplicar reuniões e iniciativas, precisamos fortalecer comunidades vivas, fraternas e missionárias. Comunidades que coloquem a Palavra de Deus no centro, celebrem com alegria, cuidem dos mais frágeis e ofereçam a cada pessoa a possibilidade de fazer uma experiência profunda do amor de Deus.
Transmitir a fé não é apenas conservar uma tradição. É manter viva a presença de Cristo em nossa história, fazendo com que sua luz alcance as famílias, os jovens, os trabalhadores, os pobres e todos aqueles que procuram sentido, esperança e vida.
É esse o convite que Venite ad me dirige à Igreja: receber de Cristo a luz do Evangelho e partilhá-la com generosidade, para que ninguém fique privado da alegria de conhecer seu amor.
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