Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, a socióloga Eva Alterman Blay afirma que o feminicídio está ligado à mentalidade patriarcal que trata a mulher como propriedade. A pesquisadora analisa as causas da violência, o papel da educação e a importância da mobilização social para transformar essa realidade.
A violência contra as mulheres continua sendo um dos desafios mais graves da sociedade brasileira. Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, a socióloga Eva Alterman Blay explica que o feminicídio – assassinato de mulheres motivado por violência de gênero – tem raízes profundas em uma cultura patriarcal que ainda marca as relações sociais no país.
Segundo a pesquisadora, a sociedade brasileira foi historicamente estruturada sobre relações de dominação masculina. Nesse modelo cultural, muitos homens foram educados a considerar que possuem autoridade sobre as mulheres, tratando-as como se fossem sua propriedade. Essa mentalidade ajuda a explicar por que alguns não aceitam o fim de relacionamentos, o divórcio ou a autonomia feminina.
Blay destaca que, ao longo das últimas décadas, o movimento feminista tem promovido mudanças profundas ao afirmar que mulheres e homens são iguais em dignidade e direitos. Essa transformação, porém, não ocorre sem resistência. Em muitos casos, a perda de privilégios históricos gera reações violentas de alguns homens que interpretam a igualdade como ameaça à sua identidade ou masculinidade.
A socióloga chama atenção também para a presença de modelos distorcidos de masculinidade, difundidos em grupos e discursos que defendem a autoridade absoluta do homem e reforçam comportamentos de controle e dominação. Essas ideias podem alimentar atitudes agressivas e naturalizar a violência nas relações afetivas.
Outro aspecto importante destacado na entrevista é que o feminicídio muitas vezes não começa com um crime extremo, mas com sinais iniciais de controle e violência: ciúmes excessivos, tentativas de controlar roupas, amizades ou comportamentos da mulher. Para a pesquisadora, esses sinais precisam ser reconhecidos desde cedo, pois costumam anteceder agressões mais graves.
Diante desse cenário, Blay defende que a educação é uma ferramenta fundamental para prevenir a violência. Desde a infância, meninas e meninos precisam aprender sobre respeito ao próprio corpo, limites nas relações e igualdade entre homens e mulheres. Esse processo educativo ajuda a formar uma cultura de respeito e a evitar a naturalização da violência.
A pesquisadora também ressalta a importância da mobilização da sociedade civil. Segundo ela, muitos avanços na defesa dos direitos das mulheres surgiram a partir da pressão de movimentos sociais, organizações e mobilizações públicas que denunciaram a violência e exigiram políticas de proteção.
Apesar da gravidade do problema, Blay vê sinais de mudança. O aumento das denúncias, das mobilizações e do debate público sobre o feminicídio mostra que a sociedade está se tornando mais consciente da necessidade de enfrentar essa realidade.
Para a socióloga, a superação da violência contra as mulheres exige uma transformação cultural profunda: restaurar relações humanas baseadas no respeito, na igualdade e na dignidade de todas as pessoas.
Leia a entrevista completa em IHU
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